15 junho 2009

Odisséia no Espaço

Desde pequeno, Tomas tem esse sentimento de liberdade. Algo como claustrofobia, só que mais leve, e mais amplo. Tomas é o tipo do cara que se sente incomodado se você segurar no braço dele. Logo vai praguejar um "me solta!" mal-humorado.

Tomas obedece as instruções da base, coloca seu capacete e toma suas pílulas de proteína. Senta-se no banco do piloto e passa o cinto. Pilotar é sua forma de expressar a liberdade. Logo quando aprendeu a dirigir, antes mesmo de tirar a carteira de habilitação, Tomas pegou o carro de sua mãe, e viajou por um mês e meio. Era uma urgência. Uma urgência por mudança. E não é como se Tomas precisasse conhecer novos lugares. Ele apenas precisava saber se ele era capaz de viajar para novos lugares. É diferente. É o sentimento de liberdade lutando contra o sentimento de pertencer a um lugar.

A base de controle informa o início da contagem regressiva para o lançamento. Tomas aciona a partida dos motores de propulsão. Checa a ignição. E ouve a base de controle desejando "boa sorte, e que o amor de Deus esteja com você." Enquanto descem os números da contagem, Tomas não percebe o quanto essa viagem é semelhante a todas as outras. De quando saiu da casa de seus pais e nunca mais voltou. Ou de quando saiu de seu país e não voltou. Ou quando quase largou sua mulher uma vez. Voltou quando descobriu que ela estava grávida. O sentimento paterno seria a única coisa que prendia Tomas?

Lançamento.

Já fora da atmosfera terrestre, Tomas ouve o comunicador soar.
"Base para Major Tom."
Tomas responde que está consciente e bem.
"Ótimo, Major Tom. Você realmente conseguiu."
O caminho da vida de Tomas não tem volta. Ele sabe disso e não se importa.

Após alguns dias no espaço, Tomas já está familiarizado com a pressão, a falta de gravidade, as cápsulas de comida, e o tipo de relação com os humanos em seu comunicador.
"Base para Major Tom. A imprensa está querendo saber que marca de camisetas você costuma usar."
O sentimento de ânsia por liberdade começa a aflorar novamente em Tomas.

"Base para Major Tom. sua órbita está estabilizada. Está na hora de sair da cápsula, quando estiver pronto."
Tomas veste seu uniforme. Já fazia dias que só usava roupas de baixo na cápsula. Aciona o comunicador de seu capacete. Liga os tubos de respiração. Prende os mosquetões aos cabos. Despressuriza a câmara. Aciona a porta.

"Major Tomas para base de controle. Estou saindo pela porta. Senti a diferença de pressão. Ainda estou conectado à cápsula pelos cabos e o tubo de oxigênio. Estou flutuando da maneira mais peculiar. (Tomas ri.) As estrelas parecem diferente hoje."

"Base para Major Tom. Por favor avise quando terminar os procedimentos externos à cápsula. Marcamos uma entrevista com um programa de TV."

Tomas senta-se no que considerou ser o topo de sua nave. Sentia-se alto, porque dali conseguia ver o planeta terra abaixo de seus pés. O conceito de altura é bastante complexo para alguém que se locomove no espaço sem gravidade. É como o conceito de identidade, que fica mais complexo quando passamos a morar em outro país. E mesmo assim, mesmo cem mil milhas distante de seu planeta, de seu país, e da casa de sua mãe, mesmo assim Major Tomas sentiu-se estável. Nem mesmo o movimento disforme em gravidade zero o surpreendia mais.

"Major Tom para base. O planeta Terra é azul. E não tem mais nada que eu possa fazer aqui. Acho que minha espaçonave sabe como voltar. Digam à minha esposa que eu a amo muito. Ela sabe."

A cápsula espacial aciona o piloto automática e inicia o movimento de reversão. Recolhe os cabos e fecha a porta.
"Base para Major Tom. Os circuitos não respondem ao nosso comando. Há algo errado? Pode me ouvir, Major Tom? Pode me ouvir, Major Tom? Pode me ouvir?..."