Se o time do capitalismo jogasse futebol, talvez fosse mesmo o time canarinho. Cada um por si, e Deus contra todos.
Claro, tem que ser um time que ataca, que acredite que a melhor defesa é, mesmo, o ataque. E que jogue o tempo todo em campeonatos para ganhar. Nada de amistoso. É jogar pra dar goleada. Quanto mais goleadas conseguir dar no adversário, melhor. Não importa se o adversário é freguês, cliente ou funcionário. O que interessa é golear, e deixar que ele perca.
Aliás, o time capitalista espera isso mesmo. Que o adversário perca, perca bastante, até cair pra segunda divisão, ou pra terceira divisão, quarta, clube de várzea, miserável, more na rua e um dia morra de fome. E se na saída do estádio, formos entrevistar os jogadores, eles dirão o discurso capitalista, "Perdemos porque não jogamos bem, o outro time tava mais forte... mas Deus vai ajudar no próximo campeonato, se quem sabe a gente sobreviver até lá..."
Os juízes dos times capitalistas, é claro, também são capitalistas, e deixam ganhar quem pagar melhor. Se bobear, até eles fazem gol no time da várzea.
E a torcida é antropofágica. Ou, como diziam antigamente, canibal mesmo. São capazes de tudo pra arrancar o caro do time adversário. E do juiz. E da torcida adversário. Até invadem o campo, se sobrar uma brecha. Em partida capitalista é sempre bom ter uns policiais por perto, porque o jogo pode ser de vida ou morte. Muitas vezes é. E com sorte, a polícia consegue prender um ou dois jogadores do time adversário, só pra facilitar que o time deles lucre mais. Ops, goleie mais.
***
Já o time socialista é assim: joga na retranca. Ninguém toma gol. Nem faz gol. Todos os jogos terminam no zero a zero. Se alguém fizer gol, pode haver desigualdade esportiva, então é melhor não. Aliás, melhor nem competir mesmo. Fica só no amistoso. Talvez só no treino mesmo. Todo mundo treina, todo mundo fica melhor. Todo mundo joga bem por ali. Só não compete.
Como ninguém perde, ninguém chora, a imprensa não tem muito o que fazer na saída do estádio. No máximo o repórter dá sua própria opinião: "Ninguém ganhou o jogo hoje de novo, aqui no estádio da capital!" e aponta o microfone para o jogador e pergunta se ele está triste por não ter ganho, e o jogador responde "Não, tá tudo bem. Mas eu sinto inveja daqueles capitalistas que jogam pra ganhar e ficam felizes da vida."
E a platéia do futebol socialista? Não tem. Pra quê? Vai terminar em zero a zero mesmo! Eles foram eles mesmos jogar futebol. Todo mundo tá jogando futebol, nos campos, nas várzeas, nos quintais. É isso que eles gostam de fazer.
E os juízes têm de monte, porque em todo lugar tem gente jogando. Alguns se revezam entre ser juiz e ser jogador. E não, ninguém gosta do juiz mesmo assim. Ele continua tendo a mãe homenageada durante o jogo.
***
Mas qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. Todo mundo sabe que futebol é futebol, e que capitalismo e socialismo são sistemas políticos. Não têm nada a ver um com o outro. Ou quase nada.
18 dezembro 2009
14 dezembro 2009
Heidnischkuchen - Torta Pagã
"Man soll einen Teig nehmen und den dünn ausrollen. Und nimm gekochtes Fleisch und Äpfel und gehackten Speck und Eier. Und backe es und serviere es und versalz es nicht."
http://www.kochmeister.com/r/46576-heidnischer-kuchen.html
ou, se você preferir, pode tentar fazer uma versão mais fácil, misturando essa receita de torta de liquidificador aqui
http://tudogostoso.uol.com.br/receita/1362-torta-de-liquidificador.html
com carne moída, bacon, maça e pimenta. :)
Viel Spaß und Glück!
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com carne moída, bacon, maça e pimenta. :)
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05 dezembro 2009
Círculo [Vício]so
Passei essa semana inteira em São José dos Campos, trabalhando para a Petrobrás.
Era um trabalho sobre a consciência de que alcoolismo é uma doença. Imagino que a incidência de alcoolismo entre os empregados deve estar preocupante.
Quem são os empregados em questão? Homens, em sua maioria de Minas Gerais e Nordeste, que conseguiram um emprego para trabalhar por 6 meses em um gasoduto em uma cidade do interior de São Paulo, no caso, São José dos Campos.
São José dos Campos é uma cidade de tamanho médio, com um bom governo, bom movimento cultural, pessoas de alto nível de instrução, e com taxa de pobreza abaixo da média nacional. Essa cidade também tem poços de gás natural, onde tem vários trabalhadores de outras partes do país, que não têm mais nada pra fazer além de trabalhar e ir pra cidade. Ah, sim, e a cidade também tem mulheres muito bonitas, que são atraentes para mim, para você e para os trabalhadores do gasoduto.
O gasoduto é uma tubulação utilizada para transportar gás natural de um lugar para outro. Dependendo do tamanho, pode levar vários meses, até anos para serem instalados. O que leva tempo suficiente para que seus trabalhadores conheçam pessoas na cidade, façam filhos, e deixem a cidade logo em seguida, deixando para trás os "filhos do gasoduto", como são chamados pelos trabalhadores da Petrobrás.
Petrobrás é a empresa que tem recebido reclamações sobre seus trabalhadores e seus "filhos do gasoduto". A empresa decide então, sugerir a seus trabalhadores que não vão mais se divertir na cidade, no caso São José dos Campos, e que vão fazer outra coisa, no caso ficar em casa tomando qualquer coisa.
Ficar em casa tomando qualquer coisa, multiplicado por 6 meses, elevado à quilometragem que está longe de sua família, somado à quantidade de trabalho diário exercido é uma fórmula que tem muito frequentemente um resultado chamado alcoolismo.
Alcoolismo é o problema que a Petrobrás quer resolver, e a razão do meu trabalho semana passada, e a razão desse post.
Era um trabalho sobre a consciência de que alcoolismo é uma doença. Imagino que a incidência de alcoolismo entre os empregados deve estar preocupante.
Quem são os empregados em questão? Homens, em sua maioria de Minas Gerais e Nordeste, que conseguiram um emprego para trabalhar por 6 meses em um gasoduto em uma cidade do interior de São Paulo, no caso, São José dos Campos.
São José dos Campos é uma cidade de tamanho médio, com um bom governo, bom movimento cultural, pessoas de alto nível de instrução, e com taxa de pobreza abaixo da média nacional. Essa cidade também tem poços de gás natural, onde tem vários trabalhadores de outras partes do país, que não têm mais nada pra fazer além de trabalhar e ir pra cidade. Ah, sim, e a cidade também tem mulheres muito bonitas, que são atraentes para mim, para você e para os trabalhadores do gasoduto.
O gasoduto é uma tubulação utilizada para transportar gás natural de um lugar para outro. Dependendo do tamanho, pode levar vários meses, até anos para serem instalados. O que leva tempo suficiente para que seus trabalhadores conheçam pessoas na cidade, façam filhos, e deixem a cidade logo em seguida, deixando para trás os "filhos do gasoduto", como são chamados pelos trabalhadores da Petrobrás.
Petrobrás é a empresa que tem recebido reclamações sobre seus trabalhadores e seus "filhos do gasoduto". A empresa decide então, sugerir a seus trabalhadores que não vão mais se divertir na cidade, no caso São José dos Campos, e que vão fazer outra coisa, no caso ficar em casa tomando qualquer coisa.
Ficar em casa tomando qualquer coisa, multiplicado por 6 meses, elevado à quilometragem que está longe de sua família, somado à quantidade de trabalho diário exercido é uma fórmula que tem muito frequentemente um resultado chamado alcoolismo.
Alcoolismo é o problema que a Petrobrás quer resolver, e a razão do meu trabalho semana passada, e a razão desse post.
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30 novembro 2009
Considerações teatrais...
Esse final de semana assisti um espetáculo ótimo do grupo Clowns de Shakespeare, que me deixou muito feliz, e até com um pouco de inveja (tamanha qualidade artística) e com um pouco de vontade de montar novos espetáculos.
E devo dizer que quando você trabalha com teatro, assistir um espetáculo é uma coisa muito estranha. Eu já entro na sala reparando se a cortina está aberta ou fechada, quantos refletores tem para a geral e outros detalhes como esses. É um inferno! Eu não consigo evitar reparar no acabamento do figurino, ou se a luz está bem afinada ou não. Meu olhar está treinado para isso!
A medida que o espetáculo acontece, minha cabeça está sempre a mil, imaginando se existiria um jeito melhor de encenar aquele texto, ou se o ator poderia ter dito o texto com outra entonação, ou se ele perdeu a chance de fazer uma piada que seria ótima...
Mas com "O Capitão e a Sereia" (a peça do final de semana) foi diferente. Eu voltei a ser um menino que ouvia uma história interessante e inédita.
E olha que eles ainda falavam o tempo todo sobre um grupo de teatro no sertão.

Se quiser, pode clicar aqui para ver o blog da trupe nordestina, e quem não viu em São Paulo provavelmente não terá chance de ver, porque eles voltam pra Natal amanhã mesmo.
Eles vão e me deixam aqui com vontade de fazer um espetáculo como aquele, cheio de fantasia, música, narrativas e espaços no tempo.
E devo dizer que quando você trabalha com teatro, assistir um espetáculo é uma coisa muito estranha. Eu já entro na sala reparando se a cortina está aberta ou fechada, quantos refletores tem para a geral e outros detalhes como esses. É um inferno! Eu não consigo evitar reparar no acabamento do figurino, ou se a luz está bem afinada ou não. Meu olhar está treinado para isso!
A medida que o espetáculo acontece, minha cabeça está sempre a mil, imaginando se existiria um jeito melhor de encenar aquele texto, ou se o ator poderia ter dito o texto com outra entonação, ou se ele perdeu a chance de fazer uma piada que seria ótima...
Mas com "O Capitão e a Sereia" (a peça do final de semana) foi diferente. Eu voltei a ser um menino que ouvia uma história interessante e inédita.
E olha que eles ainda falavam o tempo todo sobre um grupo de teatro no sertão.

Se quiser, pode clicar aqui para ver o blog da trupe nordestina, e quem não viu em São Paulo provavelmente não terá chance de ver, porque eles voltam pra Natal amanhã mesmo.
Eles vão e me deixam aqui com vontade de fazer um espetáculo como aquele, cheio de fantasia, música, narrativas e espaços no tempo.
23 novembro 2009
Após uma breve viagem ao outro lado do Equador, voltei para São Paulo e já me afundei até os cabelos na vida teatral paulista, ensaiando, apresentando, assistindo espetáculos, criando performances, visitando amigos e indo a festinhas particulares em vilas arborizadas escondidas no coração da metrópole.
Mas o pensamento que reinou absoluto na minha cabeça nessa agitada semana em São Paulo foi O Que Posso Fazer com Tudo Isso?.
Uma viagem a um lugar com cultura diferente serve pra muitas coisas, e uma delas é deslocar um pouco o nosso ponto de vista sobre nosso cotidiano (ou algo parecido com um cotidiano) para um ponto de vista um pouco mais distante, relativizado com a experiência da viagem.
Nesse caso, todo o sistema econômico socialista cubano me apontou que poderíamos fazer muito mais arte com as condições que temos, desde que sejamos um pouco mais corajosos (o que inclui coragem governamental) para utilizar o teatro como identidade da sociedade.
É com um pensamento confuso e ainda não-estruturado assim que sigo hoje buscando rumos a tomar e mais coragem para fazer todos os planos que borbulham na minha imaginação fértil.
E também lendo Adventures in the Dream Trade do genial Neil Gaiman, percebi como um blog pode ser legal, e vim aqui correndo postar algo sobre o que tem acontecido comigo.
Mas o pensamento que reinou absoluto na minha cabeça nessa agitada semana em São Paulo foi O Que Posso Fazer com Tudo Isso?.
Uma viagem a um lugar com cultura diferente serve pra muitas coisas, e uma delas é deslocar um pouco o nosso ponto de vista sobre nosso cotidiano (ou algo parecido com um cotidiano) para um ponto de vista um pouco mais distante, relativizado com a experiência da viagem.
Nesse caso, todo o sistema econômico socialista cubano me apontou que poderíamos fazer muito mais arte com as condições que temos, desde que sejamos um pouco mais corajosos (o que inclui coragem governamental) para utilizar o teatro como identidade da sociedade.
É com um pensamento confuso e ainda não-estruturado assim que sigo hoje buscando rumos a tomar e mais coragem para fazer todos os planos que borbulham na minha imaginação fértil.
E também lendo Adventures in the Dream Trade do genial Neil Gaiman, percebi como um blog pode ser legal, e vim aqui correndo postar algo sobre o que tem acontecido comigo.
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