Recentemente, tive que escrever algumas cartas de intenção. Ninguém sabe exatamente o que é isso, quando se lê nas instruções: "Para se inscrever nessa oficina, envie currículo e carta de intenção."
Pensei em várias cartas de intenção enquanto elaborava uma...
Carta de Intenção 1 -
"Olá, prezado. Minha intenção em fazer sua oficina é apenas a de matar meu tempo. Morro de tédio quando estou em casa."
Carta de Intenção 2 -
"Olá, minha intenção com essa matrícula é aumentar meu salário, minha fama, e meu acesso à groupies."
Carta de Intenção 3 -
"Minha intenção é a mesma de todas as noites. Tentar dominar o mundo!"
Carta de Intenção 4 -
"Minha intenção é fazer mais sexo do que normalmente faço."
Carta de Intenção 5 -
"Minha intenção é criar uma oficina melhor que a sua. Obrigado pela oportunidade."
Carta de Intenção 6 -
"Na verdade eu não tive intenção. Me inscrevi sem querer."
07 outubro 2009
21 setembro 2009
Hoje eu li em algum jornal... (na Folha, acho) que o metrô de São Paulo fez mais uma avanço em suas instalações para melhorar o sistema de transporte público da cidade.
Pois bem... eles fizeram uma escada-rolante mais rápida!
Sério!
...
A reportagem indica como a escada-rolante está fazendo a diferença nas estações em que já foi instalada. Que em uma hora, ela passou de 11 mil para 13 mil transeuntes transportados. E que uma pessoa leva menos de vinte segundos para percorrer 15 metros da escada-rolante.
Agora o que eu imagino é milhões de pessoas descendo muito mais rápido nas escadas-rolante da estação Sé pra fazer a baldeação, que continua a mesma merda. Em horários de pico (lê-se das 7h da manhã às 22h) os trens sempre estão uberlotados, e eu já fiquei até meia-hora esperando pra conseguir entrar num vagão. Mas veja bem, agora eu vou poder me entediar de esperar mais rápido com as novas escadas-rolante!

...
Isso deve fazer diferença mesmo é na estação Anhangabaú, onde você tem que pegar uns quinze lances de escada-rolante até sair na Praça D. José Gaspar. Aposto que o trajeto vai diminuir de 20 para 17 minutos.
Pô, que bom, vou parar de perder o ônibus, né! Talvez eu não saiba, talvez o ônibus sempre demore a chegar porque sempre que eu chego e tinha acabado de sair. E aí tenho que esperar mais 40 minutos para o próximo ônibus. Ainda bem que a escada-rolante está mais rápida! Não vou mais perder o ônibus!
Realmente, acelerar a escada-rolante foi um dinheiro muito bem gasto. Quando fizerem as novas linhas do metrô em 2015, espero que todas estejam com escadas-rolante modernas.
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01 agosto 2009
Quando comecei a fazer teatro na cidade gigante de São Paulo, a primeira coisa que procurei foi achar a minha turma.
Fui até a turma do teatro político, me apresentei e tomamos algumas cervejas juntos. Ouvi eles reclamarem que não estamos fazendo nada para melhorar nossa condição. Ouvi dizerem que o melhor teatro é o deles. Tentamos fazer uma peça juntos, mas não deu certo, porque todos estávamos sem grana. Tentamos fazer um movimento para ganhar verba do governo, e ainda estamos fazendo reuniões públicas sobre isso.
Fui até a turma do teatro de grupo. Gosto do teatro deles. Eles também são ativos politicamente. Tomamos café juntos e conversamos. Não pude fazer peça com eles, mas deixaram que eu estagiasse como contra-regras. Carreguei cenário deles. Ajudei a fazer produção pra eles. Eles me estimularam muito para fazer meu próprio grupo.
Fui até a turma do teatro musical. Primeiro perguntaram o que eu estava fazendo ali, e me apresentei. Me levaram para fazer alguns testes. Me apresentaram para produtores importantes. Cheguei até a transar com algumas modelos. Sugeriram que eu morasse no Rio.
Fui até a turma do teatro da periferia. Me acolheram com entusiasmo. Trabalhamos com as crianças. Fizemos uma peça e apresentamos. Fizemos outra. E mais uma depois. Sugeri que procurássemos patrocínio. Estamos procurando.
No final das contas, contei tudo aos meus antigos amigos. E eles perguntaram se não poderíamos fazer uma peça juntos. Estamos apresentando até hoje....
Fui até a turma do teatro político, me apresentei e tomamos algumas cervejas juntos. Ouvi eles reclamarem que não estamos fazendo nada para melhorar nossa condição. Ouvi dizerem que o melhor teatro é o deles. Tentamos fazer uma peça juntos, mas não deu certo, porque todos estávamos sem grana. Tentamos fazer um movimento para ganhar verba do governo, e ainda estamos fazendo reuniões públicas sobre isso.
Fui até a turma do teatro de grupo. Gosto do teatro deles. Eles também são ativos politicamente. Tomamos café juntos e conversamos. Não pude fazer peça com eles, mas deixaram que eu estagiasse como contra-regras. Carreguei cenário deles. Ajudei a fazer produção pra eles. Eles me estimularam muito para fazer meu próprio grupo.
Fui até a turma do teatro musical. Primeiro perguntaram o que eu estava fazendo ali, e me apresentei. Me levaram para fazer alguns testes. Me apresentaram para produtores importantes. Cheguei até a transar com algumas modelos. Sugeriram que eu morasse no Rio.
Fui até a turma do teatro da periferia. Me acolheram com entusiasmo. Trabalhamos com as crianças. Fizemos uma peça e apresentamos. Fizemos outra. E mais uma depois. Sugeri que procurássemos patrocínio. Estamos procurando.
No final das contas, contei tudo aos meus antigos amigos. E eles perguntaram se não poderíamos fazer uma peça juntos. Estamos apresentando até hoje....
28 junho 2009
Discurso Matrimonial
No final da festa, quando a maioria dos convidados já tinham ido embora, o noivo sobe no palco, pega o microfone e diz:
"E agora, o fim está próximo. Já até fecharam as cortinas. Meus amigos, vou dizer claramente sobre o meu caso. Está tudo bem claro.
Eu vivi uma vida cheia. Viajei em quase todas as estradas. E muitas outras coisas, eu fiz do meu jeito.
Arrependimentos... tive alguns. Mas mesmo assim, tão pequenos, que nem vale a pena mencionar. Eu fiz o que tinha de fazer. E passei por tudo, tudo, sem exceção.
Eu planejei cada passo. Cada pequeno movimento pelo caminho. E mais ainda, muito mais que isso, tudo do meu jeito.
Sim, houve tempos, eu sei que vocês sabem, em que talvez eu tenha mordido mais do que conseguiria comer. Mas aí, quando surgiam dúvidas, eu engolia tudo, ou cuspia. Eu encarava de cabeça erguida. E encarei do meu jeito.
Eu amei, eu ri, eu chorei, eu tive minha parte. E minha porção de perdas. E agora, sem lágrimas nos olhos, acho que foi tudo muito excitante.
E pensar que fiz tudo isso. Ainda ouso dizer: não foi de uma maneira discreta. Ah não, meus amigos, eu não. Eu fiz tudo do meu jeito.
O que é um homem? O que um homem tem? Apenas a ele mesmo! Para dizer as coisas que ele realmente sente! E não dizer as palavras daqueles que se ajoelham. As gravações mostraram como eu atropelei a vida! E fiz isso do meu jeito!"
"E agora, o fim está próximo. Já até fecharam as cortinas. Meus amigos, vou dizer claramente sobre o meu caso. Está tudo bem claro.
Eu vivi uma vida cheia. Viajei em quase todas as estradas. E muitas outras coisas, eu fiz do meu jeito.
Arrependimentos... tive alguns. Mas mesmo assim, tão pequenos, que nem vale a pena mencionar. Eu fiz o que tinha de fazer. E passei por tudo, tudo, sem exceção.
Eu planejei cada passo. Cada pequeno movimento pelo caminho. E mais ainda, muito mais que isso, tudo do meu jeito.
Sim, houve tempos, eu sei que vocês sabem, em que talvez eu tenha mordido mais do que conseguiria comer. Mas aí, quando surgiam dúvidas, eu engolia tudo, ou cuspia. Eu encarava de cabeça erguida. E encarei do meu jeito.
Eu amei, eu ri, eu chorei, eu tive minha parte. E minha porção de perdas. E agora, sem lágrimas nos olhos, acho que foi tudo muito excitante.
E pensar que fiz tudo isso. Ainda ouso dizer: não foi de uma maneira discreta. Ah não, meus amigos, eu não. Eu fiz tudo do meu jeito.
O que é um homem? O que um homem tem? Apenas a ele mesmo! Para dizer as coisas que ele realmente sente! E não dizer as palavras daqueles que se ajoelham. As gravações mostraram como eu atropelei a vida! E fiz isso do meu jeito!"
15 junho 2009
Odisséia no Espaço
Desde pequeno, Tomas tem esse sentimento de liberdade. Algo como claustrofobia, só que mais leve, e mais amplo. Tomas é o tipo do cara que se sente incomodado se você segurar no braço dele. Logo vai praguejar um "me solta!" mal-humorado.
Tomas obedece as instruções da base, coloca seu capacete e toma suas pílulas de proteína. Senta-se no banco do piloto e passa o cinto. Pilotar é sua forma de expressar a liberdade. Logo quando aprendeu a dirigir, antes mesmo de tirar a carteira de habilitação, Tomas pegou o carro de sua mãe, e viajou por um mês e meio. Era uma urgência. Uma urgência por mudança. E não é como se Tomas precisasse conhecer novos lugares. Ele apenas precisava saber se ele era capaz de viajar para novos lugares. É diferente. É o sentimento de liberdade lutando contra o sentimento de pertencer a um lugar.
A base de controle informa o início da contagem regressiva para o lançamento. Tomas aciona a partida dos motores de propulsão. Checa a ignição. E ouve a base de controle desejando "boa sorte, e que o amor de Deus esteja com você." Enquanto descem os números da contagem, Tomas não percebe o quanto essa viagem é semelhante a todas as outras. De quando saiu da casa de seus pais e nunca mais voltou. Ou de quando saiu de seu país e não voltou. Ou quando quase largou sua mulher uma vez. Voltou quando descobriu que ela estava grávida. O sentimento paterno seria a única coisa que prendia Tomas?
Lançamento.

Já fora da atmosfera terrestre, Tomas ouve o comunicador soar.
"Base para Major Tom."
Tomas responde que está consciente e bem.
"Ótimo, Major Tom. Você realmente conseguiu."
O caminho da vida de Tomas não tem volta. Ele sabe disso e não se importa.
Após alguns dias no espaço, Tomas já está familiarizado com a pressão, a falta de gravidade, as cápsulas de comida, e o tipo de relação com os humanos em seu comunicador.
"Base para Major Tom. A imprensa está querendo saber que marca de camisetas você costuma usar."
O sentimento de ânsia por liberdade começa a aflorar novamente em Tomas.
"Base para Major Tom. sua órbita está estabilizada. Está na hora de sair da cápsula, quando estiver pronto."
Tomas veste seu uniforme. Já fazia dias que só usava roupas de baixo na cápsula. Aciona o comunicador de seu capacete. Liga os tubos de respiração. Prende os mosquetões aos cabos. Despressuriza a câmara. Aciona a porta.
"Major Tomas para base de controle. Estou saindo pela porta. Senti a diferença de pressão. Ainda estou conectado à cápsula pelos cabos e o tubo de oxigênio. Estou flutuando da maneira mais peculiar. (Tomas ri.) As estrelas parecem diferente hoje."
"Base para Major Tom. Por favor avise quando terminar os procedimentos externos à cápsula. Marcamos uma entrevista com um programa de TV."
Tomas senta-se no que considerou ser o topo de sua nave. Sentia-se alto, porque dali conseguia ver o planeta terra abaixo de seus pés. O conceito de altura é bastante complexo para alguém que se locomove no espaço sem gravidade. É como o conceito de identidade, que fica mais complexo quando passamos a morar em outro país. E mesmo assim, mesmo cem mil milhas distante de seu planeta, de seu país, e da casa de sua mãe, mesmo assim Major Tomas sentiu-se estável. Nem mesmo o movimento disforme em gravidade zero o surpreendia mais.
"Major Tom para base. O planeta Terra é azul. E não tem mais nada que eu possa fazer aqui. Acho que minha espaçonave sabe como voltar. Digam à minha esposa que eu a amo muito. Ela sabe."
A cápsula espacial aciona o piloto automática e inicia o movimento de reversão. Recolhe os cabos e fecha a porta.
"Base para Major Tom. Os circuitos não respondem ao nosso comando. Há algo errado? Pode me ouvir, Major Tom? Pode me ouvir, Major Tom? Pode me ouvir?..."
Tomas obedece as instruções da base, coloca seu capacete e toma suas pílulas de proteína. Senta-se no banco do piloto e passa o cinto. Pilotar é sua forma de expressar a liberdade. Logo quando aprendeu a dirigir, antes mesmo de tirar a carteira de habilitação, Tomas pegou o carro de sua mãe, e viajou por um mês e meio. Era uma urgência. Uma urgência por mudança. E não é como se Tomas precisasse conhecer novos lugares. Ele apenas precisava saber se ele era capaz de viajar para novos lugares. É diferente. É o sentimento de liberdade lutando contra o sentimento de pertencer a um lugar.
A base de controle informa o início da contagem regressiva para o lançamento. Tomas aciona a partida dos motores de propulsão. Checa a ignição. E ouve a base de controle desejando "boa sorte, e que o amor de Deus esteja com você." Enquanto descem os números da contagem, Tomas não percebe o quanto essa viagem é semelhante a todas as outras. De quando saiu da casa de seus pais e nunca mais voltou. Ou de quando saiu de seu país e não voltou. Ou quando quase largou sua mulher uma vez. Voltou quando descobriu que ela estava grávida. O sentimento paterno seria a única coisa que prendia Tomas?
Lançamento.

Já fora da atmosfera terrestre, Tomas ouve o comunicador soar.
"Base para Major Tom."
Tomas responde que está consciente e bem.
"Ótimo, Major Tom. Você realmente conseguiu."
O caminho da vida de Tomas não tem volta. Ele sabe disso e não se importa.
Após alguns dias no espaço, Tomas já está familiarizado com a pressão, a falta de gravidade, as cápsulas de comida, e o tipo de relação com os humanos em seu comunicador.
"Base para Major Tom. A imprensa está querendo saber que marca de camisetas você costuma usar."
O sentimento de ânsia por liberdade começa a aflorar novamente em Tomas.
"Base para Major Tom. sua órbita está estabilizada. Está na hora de sair da cápsula, quando estiver pronto."
Tomas veste seu uniforme. Já fazia dias que só usava roupas de baixo na cápsula. Aciona o comunicador de seu capacete. Liga os tubos de respiração. Prende os mosquetões aos cabos. Despressuriza a câmara. Aciona a porta.
"Major Tomas para base de controle. Estou saindo pela porta. Senti a diferença de pressão. Ainda estou conectado à cápsula pelos cabos e o tubo de oxigênio. Estou flutuando da maneira mais peculiar. (Tomas ri.) As estrelas parecem diferente hoje."
"Base para Major Tom. Por favor avise quando terminar os procedimentos externos à cápsula. Marcamos uma entrevista com um programa de TV."
Tomas senta-se no que considerou ser o topo de sua nave. Sentia-se alto, porque dali conseguia ver o planeta terra abaixo de seus pés. O conceito de altura é bastante complexo para alguém que se locomove no espaço sem gravidade. É como o conceito de identidade, que fica mais complexo quando passamos a morar em outro país. E mesmo assim, mesmo cem mil milhas distante de seu planeta, de seu país, e da casa de sua mãe, mesmo assim Major Tomas sentiu-se estável. Nem mesmo o movimento disforme em gravidade zero o surpreendia mais.
"Major Tom para base. O planeta Terra é azul. E não tem mais nada que eu possa fazer aqui. Acho que minha espaçonave sabe como voltar. Digam à minha esposa que eu a amo muito. Ela sabe."
A cápsula espacial aciona o piloto automática e inicia o movimento de reversão. Recolhe os cabos e fecha a porta.
"Base para Major Tom. Os circuitos não respondem ao nosso comando. Há algo errado? Pode me ouvir, Major Tom? Pode me ouvir, Major Tom? Pode me ouvir?..."
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