23 novembro 2009

Após uma breve viagem ao outro lado do Equador, voltei para São Paulo e já me afundei até os cabelos na vida teatral paulista, ensaiando, apresentando, assistindo espetáculos, criando performances, visitando amigos e indo a festinhas particulares em vilas arborizadas escondidas no coração da metrópole.

Mas o pensamento que reinou absoluto na minha cabeça nessa agitada semana em São Paulo foi O Que Posso Fazer com Tudo Isso?.
Uma viagem a um lugar com cultura diferente serve pra muitas coisas, e uma delas é deslocar um pouco o nosso ponto de vista sobre nosso cotidiano (ou algo parecido com um cotidiano) para um ponto de vista um pouco mais distante, relativizado com a experiência da viagem.

Nesse caso, todo o sistema econômico socialista cubano me apontou que poderíamos fazer muito mais arte com as condições que temos, desde que sejamos um pouco mais corajosos (o que inclui coragem governamental) para utilizar o teatro como identidade da sociedade.

É com um pensamento confuso e ainda não-estruturado assim que sigo hoje buscando rumos a tomar e mais coragem para fazer todos os planos que borbulham na minha imaginação fértil.
E também lendo Adventures in the Dream Trade do genial Neil Gaiman, percebi como um blog pode ser legal, e vim aqui correndo postar algo sobre o que tem acontecido comigo.

15 outubro 2009

A grande verdade da nossa época (só seu conhecimento em nada nos faz
avançar, mas sem ela não se pode alcançar nenhuma outra verdade importante)
é que o nosso continente se afunda na barbárie porque nele se mantêm pela
violência determinadas relações de propriedade dos meios de produção. De que
serve escrever frases corajosas mostrando que é bárbaro o estado de coisas
em que nos afundamos (o que é verdade), se a razão de termos caído nesse
estado não se descortina com clareza? É nossa obrigação dizer que, se se
tortura, é para manter as relações de propriedade. Claro que ao dizermos
isso perdemos muitos amigos; aqueles que são contra a tortura porque julgam
ser possível manter sem ela as relações de propriedade (o que é falso).
Devemos dizer a verdade sobre as condições bárbaras que reinam no nosso país
a fim de tornar possível a ação que as fará desaparecer, isto é, que
transformará as relações de propriedade.

Devemos dizê-la aos que mais sofrem com as relações de propriedade e estão
mais interessados na sua transformação, ou seja: aos operários e aos que
podemos levar a aliarem-se com eles, por não serem proprietários dos meios
de produção, embora associados aos lucros e benefícios da exploração de quem
produz. E, é claro, devemos proceder com astúcia.

(Bertolt Brecht - As Cinco dificuldades de se escrever a Verdade.)

07 outubro 2009

Carta de Intenção

Recentemente, tive que escrever algumas cartas de intenção. Ninguém sabe exatamente o que é isso, quando se lê nas instruções: "Para se inscrever nessa oficina, envie currículo e carta de intenção."

Pensei em várias cartas de intenção enquanto elaborava uma...

Carta de Intenção 1 -
"Olá, prezado. Minha intenção em fazer sua oficina é apenas a de matar meu tempo. Morro de tédio quando estou em casa."

Carta de Intenção 2 -
"Olá, minha intenção com essa matrícula é aumentar meu salário, minha fama, e meu acesso à groupies."

Carta de Intenção 3 -
"Minha intenção é a mesma de todas as noites. Tentar dominar o mundo!"

Carta de Intenção 4 -
"Minha intenção é fazer mais sexo do que normalmente faço."

Carta de Intenção 5 -
"Minha intenção é criar uma oficina melhor que a sua. Obrigado pela oportunidade."

Carta de Intenção 6 -
"Na verdade eu não tive intenção. Me inscrevi sem querer."

21 setembro 2009

Hoje eu li em algum jornal... (na Folha, acho) que o metrô de São Paulo fez mais uma avanço em suas instalações para melhorar o sistema de transporte público da cidade.

Pois bem... eles fizeram uma escada-rolante mais rápida!

Sério!


...


A reportagem indica como a escada-rolante está fazendo a diferença nas estações em que já foi instalada. Que em uma hora, ela passou de 11 mil para 13 mil transeuntes transportados. E que uma pessoa leva menos de vinte segundos para percorrer 15 metros da escada-rolante.


Agora o que eu imagino é milhões de pessoas descendo muito mais rápido nas escadas-rolante da estação Sé pra fazer a baldeação, que continua a mesma merda. Em horários de pico (lê-se das 7h da manhã às 22h) os trens sempre estão uberlotados, e eu já fiquei até meia-hora esperando pra conseguir entrar num vagão. Mas veja bem, agora eu vou poder me entediar de esperar mais rápido com as novas escadas-rolante!


...


Isso deve fazer diferença mesmo é na estação Anhangabaú, onde você tem que pegar uns quinze lances de escada-rolante até sair na Praça D. José Gaspar. Aposto que o trajeto vai diminuir de 20 para 17 minutos.

Pô, que bom, vou parar de perder o ônibus, né! Talvez eu não saiba, talvez o ônibus sempre demore a chegar porque sempre que eu chego e tinha acabado de sair. E aí tenho que esperar mais 40 minutos para o próximo ônibus. Ainda bem que a escada-rolante está mais rápida! Não vou mais perder o ônibus!


Realmente, acelerar a escada-rolante foi um dinheiro muito bem gasto. Quando fizerem as novas linhas do metrô em 2015, espero que todas estejam com escadas-rolante modernas.


[dividindo a indignação mode: on]

01 agosto 2009

Quando comecei a fazer teatro na cidade gigante de São Paulo, a primeira coisa que procurei foi achar a minha turma.

Fui até a turma do teatro político, me apresentei e tomamos algumas cervejas juntos. Ouvi eles reclamarem que não estamos fazendo nada para melhorar nossa condição. Ouvi dizerem que o melhor teatro é o deles. Tentamos fazer uma peça juntos, mas não deu certo, porque todos estávamos sem grana. Tentamos fazer um movimento para ganhar verba do governo, e ainda estamos fazendo reuniões públicas sobre isso.

Fui até a turma do teatro de grupo. Gosto do teatro deles. Eles também são ativos politicamente. Tomamos café juntos e conversamos. Não pude fazer peça com eles, mas deixaram que eu estagiasse como contra-regras. Carreguei cenário deles. Ajudei a fazer produção pra eles. Eles me estimularam muito para fazer meu próprio grupo.

Fui até a turma do teatro musical. Primeiro perguntaram o que eu estava fazendo ali, e me apresentei. Me levaram para fazer alguns testes. Me apresentaram para produtores importantes. Cheguei até a transar com algumas modelos. Sugeriram que eu morasse no Rio.

Fui até a turma do teatro da periferia. Me acolheram com entusiasmo. Trabalhamos com as crianças. Fizemos uma peça e apresentamos. Fizemos outra. E mais uma depois. Sugeri que procurássemos patrocínio. Estamos procurando.


No final das contas, contei tudo aos meus antigos amigos. E eles perguntaram se não poderíamos fazer uma peça juntos. Estamos apresentando até hoje....